quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Iha inabitada recupera vegetação após exterminar cabras que devastaram área

Ilha inabitada mais distante da costa brasileira recupera vegetação após exterminar cabras que devastaram área verde

Ilha da Trindade, a 1.160 km da costa do Espírito Santo, chegou a ter menos de 5% de vegetação devido à presença de cabras. Quase 30 anos após extermínio dos animais, local expandiu em mais de 1.000% a área verde nativa.

Iha inabitada recupera vegetação após exterminar cabras que devastaram área
Ilha da Trindade ficou com menos de 5% da vegetação devido às cabras,
mas após o extermínio dos animais, o local está se recuperando
— Foto 1: Ruy José Valka Alves — Foto 2: Márcia Gonçalves

As informações são do Portal de Notícias G1, Por Viviane Lopes, g1 ES

Ilha da Trindade, a 1.160 km da costa do Espírito Santo, chegou a ter menos de 5% de vegetação devido à presença de cabras. Quase 30 anos após extermínio dos animais, local expandiu em mais de 1.000% a área verde nativa.

Ponto mais distante do litoral brasileiro, a Ilha de Trindade já chegou a ter sua vegetação destruída por causa da introdução de cabras no local. Quase 30 anos após o extermínio desses animais, a ilha ainda se recupera do estrago ambiental, mas hoje a paisagem já está diferente: a área verde ressurgiu sozinha e sem intervenção humana.

Em 2014, um estudo piloto passou a monitorar a área de floresta que havia sido degradada na ilha. O grupo acompanhou desde a "paisagem desértica" que o local tinha virado com a presença das cabras, até a volta das áreas verdes, onde durante alguns anos só era possível encontrar pedras.

Em 2023, a pesquisadora do Laboratório de Fitogeografia Insular e Montana do Museu Nacional (UFRJ), Márcia Gonçalves, passou a integrar a equipe. A partir daí, os pesquisadores tentaram responder algumas perguntas importantes para entender a dinâmica da regeneração florestal no local.

A Ilha da Trindade fica a 1.160 quilômetros da costa, e é uma Área de Proteção Ambiental (APA). O acesso é controlado pela Marinha. O local abriga até 46 pessoas, entre militares e pesquisadores, que ficam períodos de até 4 meses. Para chegar à ilha, são 4 dias de viagem em um navio de guerra da Marinha.

"Nós passamos a medir a evolução da floresta. Reunimos imagens e dados de expedições anteriores, com marcação de pontos de vegetação onde sabíamos o que havia e o que não havia, o total de cobertura. Com imagens e sensoriamento remoto, conseguimos remontar o cenário da ilha nesses últimos 30 anos", apontou Márcia.

Márcia apontou que, com as análises, foi possível constatar que, com o passar dos anos, algumas espécies de plantas que só existiam na ilha foram totalmente dizimadas.

As áreas verdes só eram encontradas nos pontos mais altos de Trindade, como na floresta de samambaias gigantes, em que era mais difícil a chegada das cabras.

"Algumas espécies endêmicas de Trindade e ameaçadas de extinção chegaram a ter menos de 10 indivíduos e hoje conseguiram chegar em uma população de 100 indivíduos", destacou a pesquisadora.

Os pesquisadores destacaram que em comparação a quando a ilha tinha menos de 5% de vegetação, o avanço da área verde foi de 1.468%, o equivalente a 65 hectares. Já a vegetação rasteira se expandiu em 325 hectares, um aumento de 319%.

A projeção é de que atualmente a vegetação cubra em torno de 15% da antiga área verde.

"É surpreendente a resiliência do ambiente de uma ilha, que costuma ser muito mais sensível, apresentar uma capacidade de regeneração sem interferência humana. Nos mostra que as espécies exóticas precisam ser tratadas com a devida atenção, uma vez que são grandes causadoras de desequilíbrio ecológico", pontuou.

Iha inabitada recupera vegetação após exterminar cabras que devastaram área
— Foto 1: Reprodução/TV Gazeta — Foto 2: Sergio Cardoso de Novaes/Arquivo

O estudo vai seguir em andamento e fazer a projeção para a cobertura florestal em 2125.

A pesquisadora esteve dez vezes na ilha desde o início de 2023 e disse que, mesmo em um curto período de tempo, percebeu o trabalho da natureza. "Mesmo nesses três anos foi possível perceber a diferença de cobertura, quando a gente olha para fotos mais antigas então, é muita diferença".

O resultado dessa pesquisa foi publicado em julho de 2025 no Journal of Vegetation Science, mostrando todo esse avanço natural da natureza na ilha, com o título "From Disturbance to Recovery: Unveiling the Role of Goats and Ecological Drivers on Vegetation Dynamics of Trindade Island, South Atlantic, Brazil" (“Da Perturbação à Recuperação: Desvendando o Papel das Cabras e dos Fatores Ecológicos na Dinâmica da Vegetação da Ilha da Trindade, Atlântico Sul, Brasil”).

Também participaram das pesquisas Márcia Gonçalves, Felipe Zuñe, Ruy José Válka Alves e Nílber Gonçalves da Silva.

Iha inabitada recupera vegetação após exterminar cabras que devastaram área
Floresta de samambaias gigantes na Ilha da Trindade, Vitória, Espírito Santo
— Foto: Ramon Porto/TV Gazeta

Como as cabras foram parar na ilha?

As cabras foram introduzidas em Trindade pelo astrônomo Edmond Halley — sim, o mesmo descobridor do Cometa Halley. Os animais chegaram à região em uma viagem do "desbravador" até a Ilha de Santa Helena, entre o Brasil e a África, por volta de 1700.

Ao g1, o professor do Departamento de Botânica da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Câmara explicou que o objetivo era garantir alimentação para futuros viajantes.

"Tudo indica que o Halley passou em Trindade para fazer observações astronômicas. Mas, antes, ele parou em Santa Helena, onde pegou as cabras. A ideia é que se um náufrago chegasse à ilha, teria o que comer. O que, claro, nunca aconteceu", disse Câmara.

O que ninguém imaginava, na época, era que as cabras seriam o motivo de destruição de quase toda a vegetação na ilha. "Elas comem praticamente tudo. Comem plantas com raiz, semente, fruto... E também tem o efeito do pisoteio, que interfere na vegetação", completou o professor.

Foi preciso um trabalho árduo dos pesquisadores para que as cabras desaparecessem da região. O professor titular do Departamento de Botânica do Museu Nacional, Ruy Valka Alves, acompanhou o início da ação de extermínio dos animais.

Ele contou que, para isso acontecer, muitas reuniões foram realizadas, com direito a manifestações de especialistas.

"Alguns cientistas trabalham com o número de 700, 800 cabras, e centenas de ovelhas, burros e outros animais domésticos", disse o professor. "Entrei em contato com a Marinha [responsável pela Ilha] e disse que a água potável da ilha ia acabar, porque ela depende da vegetação. As Forças Armadas se mexeram, entenderam que o risco era real e, depois de muitos anos de negociação, os fuzileiros foram finalmente colocados em uma missão", afirmou.

As diversas tentativas de erradicação começaram a ser feitas em 1957. Houve "missões" também entre as décadas de 1990 e 2000. Em 2002, por exemplo, o relevo de Trindade dificultou o acesso a muitas localidades e apenas cerca de 200 cabras (das 800 estimadas) foram eliminadas.

Somente em 2005, mais de 30 anos depois do início do projeto de erradicação das espécies invasoras, os últimos caprinos foram eliminados.

"Nesses 20 anos sem cabras na ilha, a vegetação mudou muito. Atualmente, tem até uma cachoeira, que antes não aparecia. Ela chegou a ser citada na literatura, por volta de 1600, mas só agora apareceu de novo. Houve um impacto significativo", conclui Valka.

Linha do tempo da vegetação em Trindade:

Antes de 1.700: Anterior à chegada do astrônomo Edmond Halley, pesquisadores estimam que a floresta cobria 85% da área total da ilha;
De 1.700 até 1994: Com a presença das cabras, a vegetação foi reduzida para menos de 5% de área de floresta;
De 1994 até os dias atuais: Após o extermínio das cabras, em 2005, e com a recuperação da ilha, a floresta se expandiu em mais de 1.400%.

Trindade faz parte de uma cadeia de montes submarinos vulcânicos chamada Vitória-Trindade, que termina na Ilha de Martin Vaz. Juntas, Trindade e Martin Vaz formam um arquipélago que é o ponto mais afastado do litoral brasileiro.


O local abriga grande biodiversidade e possui espécies que só existem lá.

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Ilha de Trindade, ponto mais distante do litoral brasileiro e que pertence ao Espírito Santo — Foto: Ramon Porto/TV Gazeta

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